EDUCAÇÃO
DE JOVENS E ADULTOS: OLHARES POSSÍVEIS
RESUMO
Este
artigo representa a sistematização dos movimentos realizados ao longo da
disciplina Estudos Colaborativos Orientados (ECO) com a finalidade de
apresentar os elementos empíricos do subtema: Alfabetização de adultos como
possibilidade concreta dos sujeitos agirem como protagonistas de suas
histórias, aliado à abordagem sobre a participação dos sujeitos nos processos
sociais de uso da leitura e da escrita em nossa sociedade. Assim, aproxima-se à
visão sobre ambientes alfabetizadores e comportamentos sociais de leitura e
escrita e possibilita ampliar o entendimento do tempo e espaço necessários para
a alfabetização, tendo em vista o valor desta ação pedagógica em uma sociedade
grafocêntrica. O objetivo da pesquisa é realizar um relato das atividades
realizadas na disciplina a partir do 4º semestre até o momento atual, o decorrer
do 5° semestre. Para o desenvolvimento das atividades são sujeitos da Escola
Estadual de Ensino Fundamental X – Cerro Largo – RS, a turma de Educação de
Jovens e Adultos - EJA e sua professora, focados sob um olhar de oportunidade e
possibilidade da descoberta de talentos. Teve como embasamento a experiência
acadêmica, pesquisas virtuais e presenciais sobre o assunto. Os resultados
apresentados foram obtidos através da realização de atividades propostas pela
Universidade Federal de Pelotas na graduação de LPD fundamentados em fatos
vivenciados e amparados nas pesquisas realizadas. A metodologia empregada foi a
de campo e bibliográfica. As conclusões apontam para o fato de que para ser
professor é necessário ter talento. O olhar com talento do professor unido ao
seu saber e aliado ao saber do aluno faz da aprendizagem um ato de grande
beleza.
Palavras
chave: Alfabetização. Jovens e Adultos. Letramento.
RESUMEN
Este artículo representa la
sistematización de los movimientos realizados a lo largo de la disciplina
Estudios Colaborativos Orientados (ECO) con la finalidad de presentar los
elementos empíricos del subtema: Alfabetización de adultos como posibilidad concreta
de los sujetos actúen como protagonistas de sus historias, aliado al enfoque
sobre la participación de los sujetos en los procesos sociales de uso de la
lectura y de la escritura en nuestra sociedad. Así, se aproxima a la visión sobre ambientes alfabetizadores y comportamientos
sociales de lectura y escritura y posibilita ampliar la comprensión del tiempo
y espacio necesarios para la alfabetización, con miras a el valor de esta
acción pedagógica en una sociedad grafocéntrica. El objetivo de la pesquisa es
realizar un relato de las actividades realizadas en la disciplina a partir del
4º semestre hasta el momento actual, el transcurrir del 5° semestre. Para el
desarrollo de las actividades son sujetos de la escuela Estadual de Enseñanza
Fundamental X –Cerro Largo – RS, la tanda de Educación de Jóvenes y Adultos-
EJA y su profesora, enfocados bajo un mirar de oportunidad y posibilidad del
descubrimiento de talentos. Tuvo como base la experiencia académica, pesquisas
virtuales y presenciales sobre el asunto. Los resultados presentados fueron
obtenidos a través de la realización de actividades propuestas por la
Universidad Federal de Pelotas en el grado de LPD fundamentados en hechos
vivenciados y amparados en las pesquisas realizadas. La metodología empleada
fue la del campo y bibliográfica. Las conclusiones apuntan para el hecho de que
para ser profesor es necesario tener talento. El mirar con talento del profesor
unido a su saber y aliado al saber del alumno hace del aprendizaje un acto de
gran belleza.
Palabras- llave: Alfabetización. Jóvenes y Adultos. Letramento.
1. Considerações
iniciais
O
mundo contemporâneo apresenta mudanças que afetam todos os setores da
sociedade. Apesar da crônica desigualdade social e da elevada concentração de
renda revelada pelas estatísticas, o Brasil criou condições para crescer e
repartir sua riqueza com mais justiça. O século passado deixou uma lição: a
educação é o caminho mais eficiente para o país erradicar ou ao menos amenizar
suas chagas sociais, ela está na pauta das discussões em todos os setores da
sociedade.
O
conhecimento faz parte da vida do ser humano. De posse do conhecimento é
possível perceber o mundo ao nosso redor e, com isso, podemos encontrar, as
mais diversas maneiras de sanar as dificuldades e os empecilhos que aparecem em
nossos caminhos.
Com
base no portal do MEC (Ministério da Educação) é possível dizer que houve época
em que se acreditou que o conhecimento estava nas pessoas e que ensinar era o
processo pelo qual se fazia aflorar este conhecimento interior, inato. Houve
também um tempo em que se acreditou que o conhecimento estava fora das pessoas
e que ensinar consistia em transferir o conhecimento externo para dentro das
pessoas. A escola tradicional é a explicitação desta forma de pensar. Nem fora
nem dentro: o conhecimento se constrói na relação dos seres humanos com o
mundo, nasce na relação dos homens e mulheres com o mundo, incluindo nele todos
os outros seres humanos.
A
organização curricular voltada para a investigação/pesquisa desde o início do
Curso de Licenciatura em Pedagogia a Distância – CLPD reforça a percepção do
papel insubstituível dos sujeitos e a importância de seu entorno. Incorporada
como conteúdo pedagógico através de diálogos, raciocínio e lógica, a existência
real dos alunos e o que se passa em seu interior é assimilado e transformado em
finalidade do processo ensino/aprendizagem, na busca incessante e continuada do
aprender a aprender.
O
objetivo deste trabalho é realizar um relato das atividades propostas na
disciplina Estudos Colaborativos Orientados a partir do 4º semestre do CLPD até
o momento atual, o decorrer do 5° semestre. Os parceiros eleitos para o
desenvolvimento das atividades são a Escola Estadual de Ensino Fundamental X de
Cerro Largo – RS, a turma de Educação de Jovens e Adultos inserida na escola
através de convênio firmado com a Prefeitura Municipal e sua professora,
focados sob um olhar de oportunidade e possibilidade da descoberta de talentos.
O
modo de investigação que fundamenta o trabalho é caracterizado pela experiência
vivenciada no curso de Licenciatura em Pedagogia a Distância e em pesquisas
presenciais e virtuais sobre o assunto. A interação entre alunos/alunos,
alunos/tutores e alunos/professores proporcionada por fóruns, chats ou
mensagens instantâneas e a realização de Seminários de ECO - Estudos
Colaborativos Orientados mostram-se particularmente importantes, proporcionando
subsídios valiosos para a futura docência. Os parâmetros servirão de
balizadores para a construção dos enfoques que serão tratados na conclusão,
porém não são únicos e nem se encerram em si mesmos.
2.
Atividades Iniciais – Temáticas
Instruída
no início de março do ano de 2010 a optar por uma temática entre: Educação
Inclusiva, Alfabetização, Letramento e EJA, Gestão da Escola, Educação Infantil
e Educação, Conflitos e Contradições – Mediação de Conflitos na Escola optou-se
por Alfabetização, Letramento e EJA.
Nesta temática discutem-se as situações próprias e concretas colocadas aos
docentes no momento em que se põem no desafio de acompanhar a alfabetização de
cada sujeito que ingressa na escola. Trazendo a colaboração de diferentes
áreas, a fim de compreender em que medida as ações concretas de alfabetização
na escola precisam ser redefinidas e refletidas pelo conjunto de sujeitos
envolvidos: pais, professores, alunos, funcionário e equipe diretiva, foi
necessário ampliar o entendimento do tempo e do espaço possível para a
alfabetização, tendo em vista o objetivo maior desta ação pedagógica em uma
sociedade grafocêntrica. Neste mesmo sentido, ao colocar em confronto com o
falar próprio dos sujeitos, refletiu-se quanto a um movimento de entender com
maior consistência a tarefa da escola em relação às classes populares.
No
dia 17 de abril de 2010, em um primeiro diálogo com a professora parceira,
buscou-se referências para a futura postura docente. Como possibilidade de
refletir sobre práticas concretas para além da teoria e as formas de fazer acontecer
o processo de aquisição de conhecimento, chegando-se às seguintes pontuações:
Alfabetizar é formar leitores e escritores com condições de plena participação
social. Entende-se essa afirmativa da professora como confirmação da teoria,
amparada em concepções freireanas, uma vez que: “A leitura do mundo precede a
leitura da palavra” (FREIRE, 1983, p.11). Ou seja, alfabetizar é formar pessoas
que consigam ler, escrever, interpretar, calcular aquilo que fazem e aquilo que
lhes é proporcionado para debates e discussões, de acordo com as situações de
vida apresentadas. Não podemos formar analfabetos funcionais: pessoas que mesmo
tendo anos de estudo não conseguem compreender o que leem, ou não são capazes
de elaborar um texto próprio.
Assim,
é lícito concordar com:
A alfabetização não se limita ao primeiro ano
de escolarização. Este primeiro ano de contato com a leitura e a escrita
envolve a dificuldade maior que é a pronúncia do som da letra, da sílaba, da
palavra. O desconhecimento da letra acarreta o problema da escrita já que se
não a conhece na leitura também não a conhece na escrita. Precisamos descobrir,
junto com cada aluno, como pegar o começo da aprendizagem. O mesmo ocorre com a
descoberta dos algarismos e o início dos exercícios de cálculo matemático
(SCHNEIDER, 2010).
Conforme
a mesma autora: “Não há um padrão, cada aluno está em um nível, o
trabalho é quase individual, dá-se a cada um aquilo que ele necessita para
conseguir ler ou escrever”. Segue dizendo: “O maior e melhor material para
produzir leitura e escrita é a vida dos alunos, o seu dia a dia, a sua
realidade e devemos ter um cuidado muito especial com esse material”
(SCHNEIDER, 2010).
Encerrando
o diálogo, concorda-se que se deve fazer das aulas, da aprendizagem, um momento
de encontro prazeroso para o professor e o aluno, buscando um caminho para
construir o conhecimento fundamentado na realidade que cada um deles vive ao
mesmo tempo em que aprende.
2.1 Atividades
Iniciais – Subtemática
Em
maio de 2010 optou-se por Alfabetização de Adultos como possibilidade concreta
dos sujeitos agirem como protagonistas de suas histórias aliado ao subtema:
Participação dos sujeitos nos processos sociais de uso da leitura e da escrita
em nossa sociedade aproximando assim as discussões sobre ambientes
alfabetizadores e comportamentos sociais de leitura e escrita.
O
adulto não retorna à escola com a intenção de recuperar um tempo perdido ou
para aprender algo que não aprendeu quando criança. O que ele busca é um
aprendizado para as suas necessidades atuais. Inseridos em uma sociedade que
está mudando as suas formas de se organizar, de produzir bens, de
comercializá-los, de se divertir, de ensinar e de aprender, ser alfabetizado é
uma condição que se mostra urgente.
3. Educação de Jovens
e Adultos – Letramento
Com
base nas demandas sociais de leitura e escrita recorre-se, neste item, à noção
de letramento e tem-se como objetivo verificar as relações entre o processo de
letramento e o de escolarização.
Na
década de oitenta, surgiu o termo analfabetismo funcional para designar as
pessoas que, sabendo escrever o próprio nome e identificar letras, não sabiam
fazer uso da leitura e da escrita no seu cotidiano (SOARES, 2009). À medida era
o tempo de permanência nas escolas: com menos de quatro anos considera-se que o
indivíduo não tenha se apoderado da leitura e da escrita, sendo, portanto,
analfabeto funcional. Observou-se, porém, que mesmo entre os que permaneciam
por mais tempo nas escolas, alguns não eram capazes de interagir e se apropriar
da leitura e escrita. Cria-se então, o termo letramento, para designar esta
nova condição (SOARES, 2009).
Para
Soares (2009):
Enquanto a alfabetização se ocupa da
aquisição da escrita por um indivíduo, ou grupo de indivíduos, o letramento
focaliza os aspectos sócio históricos da aquisição de um sistema escrito por
uma sociedade. Os estudos sobre o letramento, desse modo, não se restringem
somente àquelas pessoas que adquiriram a escrita, isto é, aos alfabetizados.
Buscam investigar também as consequências da ausência da escrita a nível
individual, mas sempre remetendo ao social mais amplo, isto é, procurando,
entre outras coisas, ver quais características da estrutura social têm relação
com os fatos postos.
De
acordo com Santos (2009):
Quando se considera a importância do
letramento, ficam de lado os exercícios mecânicos e repetitivos, baseados em
palavras e frases descontextualizadas. O enfoque está no aluno que constrói seu
conhecimento sobre a língua escrita e não no professor que ensina.
Para
Vygotsky (1984) citado por Soares (2009):
[...] o letramento representa o coroamento de
um processo histórico de transformação e diferenciação no uso de instrumentos
mediadores. Representa também a causa da elaboração de formas mais sofisticadas
do comportamento humano que são os chamados “processos mentais superiores”,
tais como: raciocínio abstrato, memória ativa, resolução de problemas etc.
Soares
(2002, apud GARCIA, 2005, p.145) apresenta letramento como “o estado ou
condição de indivíduos ou de grupos sociais de sociedades letradas que exercem
efetivamente as práticas sociais de leitura e de escrita participam
competentemente de eventos de letramento”.
Assim,
de acordo com Soares (2002, p.145) nas palavras de Garcia (2005) apresenta duas
dimensões de letramento:
[...] a individual e a social. A dimensão
individual de letramento, que envolve especificamente a competência de ler e
escrever e compreender o que está lendo e escrevendo, requer um conjunto de
habilidades, quais sejam: motoras, cognitivas e metacognitivas.
A
mesma autora segue dizendo, ainda que ler e escrever são processos diversos, embora
complementares, requerem habilidades diferenciadas (GARCIA, 2005).
A
dimensão social do letramento figura como uma prática social, quer dizer, de
que forma, em certo contexto, os sujeitos demonstram familiaridade com algumas
práticas de leitura e de escritura (SOARES, 2002).
Em
sociedades letradas, a escrita na vida como um todo se faz de um modo forte,
não só nas atividades de ler e escrever, mas nas atividades orais, já que a
fala das pessoas letradas é muito marcada pela linguagem que se escreve. Este
quadro se modifica dependendo do acesso que se tem a círculos letrados,
diferenciando-se, portanto, entre as classes sociais.
Para
Mey (2001, apud GARCIA, 2005, p. 241):
O letramento é também produto de uma
participação ativa em determinada atividade social e produz certa disposição; o
modo como alguém participa de certa atividade, e, consequentemente, a voz que
alguém está apto a assumir [...].
O
autor usa o termo “voz” como uma metáfora, isso é para qualquer atividade que
tenha relação com o uso da linguagem. Essas vozes estão relacionadas às
variedades linguísticas, mais precisamente à variedade padrão, a norma culta.
Assim sendo, isso quer expressar, a participação ativa em uma atividade social
letrada torna o sujeito apto a assumir a voz letrada. Então, a voz letrada
passa a ser a voz legitimada socialmente (MEY, 2001, apud GARCIA, 2005).
3.1 Alfabetização
de Adultos como possibilidade concreta dos sujeitos agirem como
protagonistas de suas histórias
Paulo
Freire (2005, p.97) afirma que “aprender a ler, a escrever, alfabetizar-se é,
antes de mais nada, aprender a ler o mundo, compreender o seu contexto, não
numa manipulação mecânica de palavras, mas numa relação dinâmica que vincula
linguagem e realidade”.
O
diálogo com a professora X, em 20 de maio de 2010, mostra as seguintes
anotações:
ü Procuro planejar as
aulas considerando a necessidade dos alunos, usando diferentes dinâmicas, uma
para cada dificuldade apresentada;
ü Diariamente preciso
planejar como ensinar cada letra, o som dela e das sílabas. É esta a fase em
que estamos agora. Só conseguirão escrever as palavras quando compreenderem
cada uma destas etapas. A mesma coisa com os números e sua escrita. É
importante trazer os materiais certos e tentar que consigam sempre aprender algo;
ü Não sigo uma rotina.
A aula depende do interesse deles. Não gostam de sair da sala e apenas quando a
Escola planeja algum programa, saem da sua rotina. Possuem consciência de sua
situação - são adultos analfabetos - e estão em sala de aula para aprender. É o
seu único objetivo.
Sobre
essas considerações da professora, encontra-se a articulação de diversos
autores que confirmam o acerto desta ação pedagógica.
Para
Pereira (2010), tutora à distância, o aluno do EJA:
[...] apresenta um grande potencial, pois nos
traz sua experiência de vida, seus conhecimentos. E a partir destes
conhecimentos podemos desenvolver um trabalho significativo de valorização e
autoestima, pois como bem sabemos, eles não são uma "folha em branco"
em que iremos iniciar um trabalho isolado de tudo o que eles já conhecem e
vivenciaram (TDLP PEREIRA, 7 abril 2010, Feedback).
Sobre
“Possuem consciência de sua situação – são adultos analfabetos – e estão
em sala de aula para aprender. É o seu único objetivo”.
Alfabetizado é aquele indivíduo que sabe ler
e escrever; já o indivíduo letrado, o indivíduo que vive em estado de
letramento, é não só aquele que sabe ler e escrever, mas aquele que usa
socialmente a leitura e a escrita, pratica a leitura e a escrita, responde
adequadamente às demandas sociais de leitura e de escrita (SOARES, 1998, p.22).
Entre
as tarefas propostas há a oportunidade de relatar o objetivo de alguns integrantes
da turma parceira: o aluno que, para "subir" no emprego quer a
carteira de motorista ou a aluna, empregada doméstica, que para “agradar a
patroa”, quer ler receitas culinárias. Assim a escrita apresenta valor social,
porque pode ser compartilhada. (DURAN, 1991). A professora-parceira também
afirma: “É importante trazer os materiais certos e tentar que consigam sempre
aprender algo”.
Sabemos que uma pequena variação no material,
na tarefa realizada pela criança, na estratégia pedagógica ou no conteúdo,
produz respostas diferentes ou respostas resistentes à mudança. A modificação
ou a resistência são sempre indicadoras de que alguma coisa funciona de determinada
maneira: na cabeça do professor, na cabeça da criança ou na própria situação.
Porém, já sabemos que o fazer pedagógico consiste na mudança permanente de
estratégias para conseguir os objetivos da Aprendizagem (TEBEROSKY, apud DURAN,
1991, p.111).
Em
“Procuro planejar as aulas considerando a necessidade dos alunos, usando
diferentes dinâmicas, uma para cada dificuldade apresentada”, tem-se a
articulação de Madalena Freire (2008, p.171): “o conteúdo emerge, explode da
vida e, é na vida do grupo (dos sujeitos cognoscentes), que se constrói a
dinâmica. Dinâmica aqui, entendida como fruto rítmico do jeito que o grupo vive
o estudo dos conteúdos”.
Ao
considerar o fragmento do discurso: “Não sigo uma rotina. A aula depende do
interesse deles”, percebe-se que a rotina faz parte do fazer pedagógico, ainda
que professora parceira não a veja como tal, apoiada novamente em Madalena
Freire e na constatação de que não há problemas de disciplina na turma: “Educar
a liberdade é educar os próprios limites (e potencialidades) em sintonia com os
da realidade, onde a construção da rotina e da disciplina são ferramentas básicas”
(FREIRE, 2008, p.35).
A
citação acima é corroborada nas palavras de Ramos (2010) quando diz:
A ação/reflexão que produz conhecimentos é
capaz de mudar o mundo e a nós mesmos. Todos nós vivenciamos esta experiência
segundo nossos valores, aspirações e de acordo com nossas experiências
anteriores. Esta vivência pessoal pode ser comunicada, mas não pode ser
transferida aos outros. Vivência não se transfere.
Igualmente,
o conhecimento que é parte integrante desta vivência não pode ser transferido.
Pode ser comunicado, mas comunicar conhecimento não é transferi-lo. Comunicar o
que se sabe sobre como se lê ou escreve não tornará ninguém alfabetizado. É
preciso que este alguém passe pela experiência do agir/pensar que constrói o
conhecimento.
Percebe-se
assim, que o processo de conhecer se faz na relação com os outros. O
conhecimento dos outros repercute nos meus e os meus repercutem no dos outros,
mesmo quando não nos damos conta disto. É verdade que a intensidade e
profundidade destas percepções são variáveis e dependem de uma série de fatores
que incluem oportunidade, necessidade, curiosidade, interesse e da infinidade
de fatores que constituem a complexa natureza humana.
3.2
As necessidades dos alunos de EJA
Nas
classes de EJA, de acordo com o MEC (2011), encontram-se questões em que nunca
pensamos muitas vezes bem diferentes das que tradicionalmente têm lugar nas
salas de aula: saber fazer orçamento por escrito (o que escrever, a forma de
escrever, como calcular preços); fazer recibos; conhecer o desenvolvimento das crianças
(filhos e/ou netos); alimentação e saúde; aspectos ligados à hereditariedade;
como divulgar o que se faz para vender: tricô, doces, sabonetes, pães; fazer
orçamento doméstico para controlar os gastos; saber preencher fichas (em
firmas, oficinas, bancos, INSS); criar senhas; usar caixas eletrônicos. Não é difícil
perceber que a partir destas questões chegamos de forma natural a muitos dos
conteúdos considerados escolares e que, de fato, constituem-se como elementos
importantes para solucionar as questões da vida diária.
Habituados
a seguir ordens, os alunos de EJA são frágeis do ponto de vista da prática do
pensar e do tomar decisões. Isso aumenta a responsabilidade da escola como
espaço capaz de incentivar essa capacidade tão fundamental ao ser humano.
Significa que a sala de aula de EJA tem a responsabilidade de ser marcada por
atividades que envolvem o pensamento, em detrimento das que apontam à mera memorização
do que se pretende ensinar. Comentar o que está sendo aprendido, tomar posição
diante de um fato ocorrido e contribuir na sua própria avaliação são situações
que certamente contribuirão para o crescimento desses alunos.
Quando
o professor pensar que a maior parte dos conteúdos que tem para dar conta na
sua sala de aula não tem o menor interesse para seus alunos, deve desistir de
ensinar estes conteúdos porque no máximo, conseguirá que eles memorizem alguns
discursos sobre eles, que serão facilmente esquecidos. Esta memorização não tem
nenhum parentesco com o conhecimento (op.cit).
Aprendendo
melhor o que já sabem e o que ainda não sabem sobre os assuntos sobre os quais
estão interessados, os alunos ampliarão os próprios horizontes e interesses.
Esta ampliação poderá atingir alguns conteúdos considerados obrigatórios
ensinar e aí, então, o professor terá sucesso em ensiná-los. De qualquer forma,
ficará um ganho muito maior do que o de uma memorização inútil:
o
exercício de reflexão que fizerem para conhecer ajudará as futuras reflexões a
serem menos trabalhosas.
4.
Resultados
A
utilização adequada das teorias disponíveis, aliadas a um movimento de construção
e pesquisa, ao diálogo e às parcerias servem de referências para auxiliar na
busca de encaminhamentos concretos para a superação de situações enfrentadas no
cotidiano escolar. Dessa forma, oferecem-se à educação importantes instrumentos,
capazes de contribuir para a melhoria da acessibilidade ao processo de
construção do conhecimento, resultando impactos que estimulam a criação de novas
maneiras de aprender e propiciam o surgimento de novos ambientes educacionais e
também colaboram com o desenvolvimento de reflexões mentais, que favorecem a
imaginação, a intuição, a capacidade de decisão e a criatividade, fundamentais
para a sobrevivência individual e coletiva.
5.
Considerações Finais
Neste
trabalho foram abordadas questões relacionadas à Educação de Jovens e Adultos e
sua viabilidade como ferramenta de inserção dos sujeitos numa sociedade
grafocêntrica. Dentro das diferentes abordagens apresentadas, pode-se vislumbrar
a ampliação do entendimento sobre a tarefa de alfabetizar de forma muito mais
abrangente do que a distinção entre métodos de ensino, sem negar o espaço próprio
destes nas discussões sobre o tema.
A
escola é um espaço privilegiado para a busca do conhecimento. As pessoas chegam
lá para aprender e quando isto não acontece, a ida à escola perde o sentido.
Aprender dá trabalho, às vezes muito trabalho. Os professores devem ter isto
sempre presente. Devem estar preocupados em não convidar seus alunos a realizar
um trabalho inútil. Trata-se de uma questão ética. Trabalho inútil ocorre quando
é realizado para obter um conhecimento que não lhes dá nenhum retorno efetivo.
É inútil também quando dele não resulta nenhum conhecimento.
A
escola, na visão tradicional, perde uma excelente oportunidade de ser um espaço
onde todos, democraticamente, exercitem o seu direito de atuar como sujeitos.
Sujeitos, diante dos conhecimentos, das outras pessoas e da natureza.
Para
os alunos de EJA pesa ainda a desvalorização dos conhecimentos que construíram
ao longo da vida. Considerados equivocados e pouco significativos, os conhecimentos
que estes alunos trazem, deixam de ser considerados como base para os novos
conhecimentos que buscam aprender: o saber medir da costureira desaparece, a
forma de calcular dos pedreiros é considerada imprecisa, o jeito de falar do
povo é visto como cheio de erros gramaticais. Esta situação torna bem mais difícil
chegar àquilo que o professor tenta ensinar. Pior do que isto, estes alunos colocam-se
em posição de inferioridade diante daqueles que são capazes de aprender melhor
do que eles. Consideram-nos mais inteligentes e não percebe que eles tiveram
maiores oportunidades, inclusive a de uma concepção de conhecimento que lhes
favoreceu.
A
leitura do mundo é contínua ao longo da vida de cada sujeito, é ampla, única e
se modifica constantemente, constituindo a sua história. História que não pode
ser menosprezada devendo ser valorizada e respeitada, e é transformada à medida
que ele se movimenta entre diferentes espaços. O professor é privilegiado ao
ter a oportunidade de acompanhar a leitura do mundo de cada um dos sujeitos da realidade
humana da escola, seja ele aluno, pai, mãe, colega, professor, vizinho, amigo,
servidor. É a diversidade que faz a grande diferença. Analisado cada momento da
ação destes protagonistas como oportunidade e possibilidade para aprender, ela
pode ser transformada na descoberta de talentos.
Esses
talentos aparecem quando instigados, motivados, provocados e incentivados. Há
necessidade de espaço para que eles surjam. Porém, é preciso esclarecer que não
é o olhar de quem se encontra ali com a intenção de informar e passar
conhecimentos que vai fazer com que isto ocorra. São olhos de talento que podem
reconhecer a outro talento. Este olhar é de quem vê, concebe e crê que este ato
de aprendizagem acontece por meio de oportunidades, que aumenta a curiosidade,
onde surge a conversa, a indagação, o compartilhamento, onde sujeitos interagem,
descobrindo, refazendo, criando e recriando (SOUZA, 2011).
Para
ser professor é preciso ter talento. O professor com o olhar com talento,
somado o seu saber e do aluno transforma a aprendizagem um ato de beleza
(SOUZA, 2011).
Assim,
a intenção de enfocar um olhar com talento para a leitura da história dos
sujeitos envolvidos, um olhar enfocado na realidade trazida pelas pessoas, que em
última análise possa servir como indicativo de solução de problemas que venham
a ser detectados no processo de construção da aprendizagem ou, em última
instância, no processo de Aprender a Aprender.
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